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CAPITULO 3 – O DESENVOLVIMENTO DOS FANZINES E A SUA ESTABILIDADE NUMA CULTURA FANZINISTA

 

Neste capítulo pretendo analisar diferentes áreas, a começar com a história dos fanzines e depois passar aos aspectos ideológicos e à publicação dos mesmos. A minha avaliação sobre os fanzines a nível histórico não é intensa, mas julgo ser necessária pois só assim poderemos conhecer o passado dos fanzines e entender de que modo a sua corrente situação se estabeleceu.

 Historia e Desenvolvimento

 Trata-se de um neologismo, com origem nos E.U.A.

O termo fanzine surgiu da contracção das palavras inglesas 'Fanatic' (ou , no aportuguesamento, com sentido positivo de entusiasta, apaixonado), com zine, ultima sílaba de magazine (equivalente a publicação ilustrada, revista...)

Consequentemente, o significado de fanzine será o de um magazine feito por fãs de um determinado tema e destinado a fãs desse mesmo tema.

            Essa contracção foi feita por Russ Chauvenet em 1941 para dar nome às publicações artesanais que começavam a surgir nos Estados Unidos. Essas publicações veiculavam artigos e curiosidades sobre ficção científica, tinham pequena tiragem e intenso tráfego/distribuição pelo correio, ou seja, voltando a ideia anterior, os primeiros fanzines apareceram nos Estados Unidos da América na década de 1930, editados por jovens adultos, inicialmente dedicados à ficção científica, mas logo a surgir o primeiro em 1936 dedicado à Banda Desenhada. O fanzine pioneiro foi The Comet, criado por Roy Palmer para o Science Correspond Club em Maio de 1930.

            Mais perto de nós, em França, os fanzines surgiram nos anos sessenta, dando prioridade aos textos críticos e de estudo sobre a BD, editados por adultos profundos conhecedores do tema.

Em Portugal, o primeiro fanzine foi o Árgon, editado por jovens e com bandas desenhadas também feitas por jovens, datado de Janeiro de 1972.

     The Comet foi criado pelo Science Correspond Club, a primeira organização a ser fundada por fãs da ficção científica. Durante muitos anos, a ficção científica dominou várias publicações de fanzines, o que deu origem a que vários editores (independentes), criassem este tipo de publicação de um modo muito pessoal.

           Os fanzines de música são reconhecidos por obterem um resultado directo sobre a ascensão da música e cultura punk nos anos 70. Segundo as éticas do punk, seria possível criar fanzines, não obstante a falta de todo o profissionalismo ou tratamento reconhecido, o que era necessário era existir entusiasmo para a sua criação, ou seja, o único pré-requisito que se pretendia para a criação de um fanzine era entusiasmo, deste modo qualquer um poderia alcançar o que pretendia.

    O sincronismo deste movimento também era benéfico aos self-publishers, lojas/empresas de fotocópias estavam prontamente disponíveis, pois uma vez criado um determinado fanzine, era necessário que este fosse reproduzido para uma audiência potencial considerável e é neste ponto que os proprietários deste tipo de loja criaram meios mais baratos e acessíveis para que as publicações fossem concebidas.

Estes factores contribuíram para que a produção de fanzines fosse efectuada com um maior entusiasmo.

           Foi então comentado que o uso mais largo e mais expansivo dos fanzines, tinha sido influenciado primeiramente pelos fanzines britânicos do punk. Houve quem sugerisse que os estilos linguísticos e de produção de fanzines britânicos que utilizavam uma língua de classe e uma determinada “aparência”, visivelmente no formato DIY foram copiados através do globo, particularmente nos Estados unidos.

Os self-publishers, britânicos, do punk parecem ser os pioneiros no que diz respeito ao formato dos fanzines, e a sua influência incentivou a criação de novas publicações.

    De todo o modo o método de expressão de fanzines não deveria permanecer apenas como propriedade do movimento punk. Usando publicações originais como um exemplo de que qualquer pessoa poderia criar, basta que esteja motivada para tal, muitos outros fanzines de variadas áreas foram aparecendo.

 Os fanzines parecem cobrir quase todas as áreas de música assim como outros temas, como é o caso dos zines americanos dedicados aos programas de televisão dos anos 70. Indivíduos interessados em determinados tipos de matéria poderiam então publicar o seu próprio zine abordando deste modo temas que poderiam ter sido previamente ignorados pela média.

 Os fanzines foram produzidos em enormes volumes e desenvolvidos em novas áreas, o que proporcionou o desenvolvimento de uma forma de cultura em seu redor. Os fanzines pertencem a uma área que é particularmente instável, devido ao seu carácter pessoal unicamente do interesse do seu autor, se não existir desejo em produzir edições adicionais, talvez mesmo após uma edição inicial, então o fanzine cessará. Consequentemente quando se puder dizer que há uma quantidade enorme de pessoas envolvidas na criação de fanzines, essas (pessoas) serão responsáveis para que frequentemente exista uma mudança. Por muito dispersos que os editores de fanzines se encontrem uns dos outros, “juntos” representam um grupo importante, pois trocam informações e ideias sobre as suas publicações, através do correio electrónico.

 Diferentes Aproximações aos Fanzines – uma Oposição Alternativa ao Mainsntream

Um determinado número de textos associados aos fanzines e ás suas teorias, podem agir como uma oposição ou um auxiliar aos meios de mainstream.

 As atitudes e percepções da imprensa mainstream sobre música são diversas, mas podem ser divididas em 2 categorias. Aqueles que acreditam que as revistas de música nada têm a oferecer e que os zines são o único meio de notícias e informação musical e existem os que respeitam a mainstream e consideram que de algum modo o zine fornece alguma informação que por vezes a imprensa não aborda. È ainda interessante saber que alguns escritores de fanzines têm alguma conveniência em escrever para revistas comerciais e deste modo utilizem os fanzines para poderem auferir de um determinado propósito, trata-se de uma espécie de treino para algo mais.

 A maioria de escritores de fanzines queixa-se do modo como a maisntream se interessa apenas em “fazer” dinheiro a qualquer custo. Aliado a isto, está o facto da mainstream trabalhar juntamente com o tipo de música industrial e deste modo não mostrar qualquer tipo de respeito por outros tipos de música e até mesmo pelos próprios músicos.

Simultaneamente, há quem considere que tudo se resume a motivações a nível financeiro no que abrange as revistas comerciais de música.

Russel Remais editor da “Fracture”, revela que realizou uma experiência durante anos e apercebeu-se que os mainstream são completamente controlados por dinheiro e pelas vendas, passando para segundo plano o conteúdo o mais importante, a revista.

Diz ainda que algumas companhias lhe ofereceram boas propostas monetárias em troca das suas entrevistas e apontamentos, mas ele declinou, mantendo deste modo todo o mérito próprio.

 È surpreendente como os 2 maiores críticos das revistas comerciais assim como do marketing e da indústria da gravação capitalista pertencem a dois fanzines punk muito conhecidos.

Implícita na ideologia punk, está a ideia de que existe uma corrupção por causa de dinheiro.

Os fanzines originais de música, apesar de tudo, tiveram a sua origem no punk de modo a fornecer a cobertura para uma nova era da música, bem diferente das ideias tradicionais da indústria musical. Torna-se deste modo bastante natural o facto dos zines contemporâneos do punk “abordarem” tudo aquilo que consideram parte de uma indústria corrompida.

 Entretanto, existem escritores que não concordam com a ideologia punk, também eles têm vários problemas com a mainstream de revistas de música. Um dos principais problemas indicados aqui é o profissionalismo inerente do mainstream. Aqui o profissionalismo é dado por uma definição degradada. Os profissionais que se dedicam ao jornalismo musical são vistos como pessoas que escrevem porque são pagos para tal, mas sem terem qualquer interesse particular em o fazer. São considerados

como escritores profissionais e não como fans de música, o que quer dizer que podem escrever sobre qualquer assunto, mesmo que não sintam motivação para tal.

O que está implícito aqui, é o facto do dinheiro servir como motivação a um determinado jornalista para que este escreva, assim como para as revistas poderem publicar. Se o incentivo para os escritores profissionais fosse muito aquém das expectativas, ou seja, se tivessem de trabalhar nas mesmas condições dos escritores de fanzines, então desistiam de imediato. Acrescentando a tudo o que já foi dito, está ainda o facto dos jornalistas de música ficarem muito aquém (no que diz respeito aos seus artigos sobre música), dos comuns escritores de fanzines. Os escritores de fanzines reivindicam para que se faça algo quanto ao facto de se gastarem quantidades consideráveis do seu próprio dinheiro na elaboração de fanzines enquanto que os escritores profissionais nada fazem para contribuir para uma boa informação e ainda são bem pagos para o fazerem.

O que os fanzines substituem para o termo “profissional”escritores, é o termo “amador”, o fan como escritor. Em oposição ao escritor profissional, temos o self-publisher, aquele que escreve apenas para seu próprio interesse.

 Quando se tem a oportunidade de se conhecer vários zines, acabasse por achar que as revistas comerciais perdem alguma credibilidade uma vez que se tornam desinteressantes.

     Respeito pelas aptidões do Mainstream/ um julgamento mais Ponderado acerca Deles

 Assim como este tipo de experiência poderá ter algum efeito sobre alguns críticos do mainstream, em outros poderá produzir um julgamento mais ponderado acerca dos fanzines.

Alguns criadores de fanzines confessam que é bastante complicado “lançarem” as suas publicações no mercando dando crédito aos profissionais que trabalham em bases bem mais regulares.

 Numa linha de pensamento na qual muitos escritores de fanzines respeitam os mainstream, existe uma vontade de acreditar que a produção de zines funciona como suplemento ou em certas ocasiões o oposto, para a indústria dos mainstream média. Há ainda quem considere que tantos os mainstream como os fanzines podem muito bem conviver em “esferas” separadas. Não existe a necessidade de entrarem em competição e isto seria possível devido à existência de uma enorme variedade dentro da escala dos fanzines.

Em todas as revistas comerciais, seja qual for o assunto que abordem, apenas conseguem reproduzir uma determinada quantidade de informação que é naturalmente relacionada com o assunto que vão apelar à atenção do consumidor.

 Os fanzines não cobrem apenas áreas referentes à música, que são consideradas pelos mass, matérias de pouco interesse. Os zines dão relevo a todo o tipo de notícias, como o aparecimento de novas bandas, concertos, etc... Até um determinado ponto, existem imensas novas bandas a gravar e a dar concertos, algumas delas com grande potencial comercial, mas sem qualquer apoio por parte dos mass a curto e longo prazo.

Se uma determinada banda consegue obter o apoio de um zine, então poderá vir a crescer de tal maneira que conseguirá a atenção dos mainstream media.

 Comunidades de Fanzines

 Um dos aspectos que se pode atribuir aos zines, como comunidade de publicações, é o facto de determinados aspectos unirem os escritores. A produção de um zine, pode ser vista como a criação em larga escala de material feito por pessoas com interesses similares.

 De todo o modo, este método de criar relações entre pessoas com interesses comuns, não se resume apenas a isso, se a grande parte das bandas, das quais as fanzines publicam material não são mencionadas pelos mainstream, então uma pequena parte da relação é constituída, baseada no “sabor” da cultura “underground”, solidária com bandas que são completamente desconhecidas. Mais ainda, o interesse de escritores de fanzines por este tipo de musica não esta limitado a esse tipo de conhecimento, eles criam o zine, para o propósito da divulgação e esta está assegurada.

 È natural então, que entusiastas escritores de fanzines, se dediquem a formar uma comunidade, para deste modo poderem trocar impressões acerca de determinados tipos de música, que não é mencionada nem publicitada pelos mainstream media.

 Provavelmente o caminho mais viável nesta comunidade para se fazer a troca de informação é através do intercâmbio de fanzines entre os respectivos criadores. Desde o seu “nascimento” que este procedimento tem feito parte da cultura dos zines. Os escritores sempre tiveram a oportunidade de obter cópias de outros zines, bastando para isso, que enviassem cópias das deles. Isto também faz parte do processo de revisão de fanzines, não se trata de uma regra a seguir, mas faz com que escritores de fanzines incentivem os leitores a conhecerem vários tipos de publicações e aperceberem-se da diversidade que existe.

 O que devemos ter em nota, é que, embora estas trocas aconteçam dentro da comunidade de fanzines, nem sempre são mutuamente apreciadas, sofrendo deste modo, algumas criticas, mas com algumas excepções e respeitando ao mesmo tempo os esforços do produtor, faz-se uma critica construtiva de modo a que o zine possa ser melhorado.

Uma característica adicional da cultura de fanzines não é somente o incentivo para a compra destas, mas sim, para a produção de novas publicações.

Devido à distância que separa a cultura de zines e o mainstream, existe a oportunidade, para a comunidade de self-publischers de reivindicar uma igualdade maior para que cada um possa publicar o seu material. Entretanto, a igualdade conseguida ainda é parcial, embora haja uma mistura parcial muito mais equilibrada nos vários tipos de zines.

 O Produtor de Fanzines visto como um Individuo

     Existem produtores/escritores de fanzines nos quais se centram todas as responsabilidades. Pode levar até 6 meses, em alguns casos, a serem criados (os zines), mas quando ficam prontos, tanto o escritor com os leitores podem acreditar que tudo o que vem escrito é do ponto de vista de um fan de música, sem qualquer outra influência.

 Existem alguns aspectos em comum com a imprensa comercial de música, mas aquele que mais distingue os fanzines é sem dúvida, a personalidade que vigora em cada produtor. (resposta dada no questionário – nº1).

 Associado à ideia da personalidade que o escritor transmite para o seu trabalho, esta o entusiasmo com que o faz, entusiasmo nos assuntos que aborda.

Com alguma frequência, produtores de fanzines comentam, que a musica representa o papel principal nas suas vidas. Mas existem alguns que não gostariam de fazer da música uma profissão, pois têm receio de mais tarde se tornar-se uma obrigação, ou seja, passariam a ver a música como uma obrigação/trabalho e não como um hobbie.

 È evidente que determinado escritor/editor de zines, tem a percepção de “controlar” alguns aspectos da personalidade que evidencia na sua escrita, ou seja, apesar de algum excesso que possa vir a prevalecer, pode sempre ser ajustado de modo a que transmita uma imagem agradável aos leitores.

     Um dos maiores problemas com que os fanzines se deparam, é com a exclusão, isolamento e afastamento do público em geral. Por muito que os fanzines sejam recomendados por uma pequena escala de publicações, existe pouca discussão acerca de cada um deles, tanto fora, como dentro do meio criado por eles. Concentrando-me na quantidade e variedade de fanzines, que são produzidos por exemplo em Inglaterra, coloco a seguinte questão: como é que é possível as pessoas acederam a informação, sem nunca terem pertencido á comunidade? …Acaba por chegar-se à conclusão que existe muita variedade mas pouca divulgação.

            Os problemas acerca da distribuição, vão ser descritos no capítulo que se segue, mas gostava, numa breve análise, de referir os aspectos que levam ao isolamento da comunidade de fanzines.

 Um comentário que muitas vezes se pode ouvir no “meio” fanzinista, é o seguinte: “ninguém quer ler artigos dos quais nunca ouviu falar, querem ler acerca daquilo que já conhecem…

            Assim sendo, artigos acerca de novas bandas vão ter pouco interesse para a maioria dos leitores, aqueles aos quais poderá interessar um artigo deste género ou têm algum conhecimento sobre o assunto ou por algo similar a este, ou então esses indivíduos produzem um zine baseado nos mesmos tópicos.

    Como anteriormente nos foi permitido verificar, a maior parte dos zines não aceita “tréguas”, com outros tipos de publicações, as quais, com o seu formato pomposo ficam muito aquém do que previamente se pensou de um zine.

 O grande problema focado aqui é, até que ponto é que um zine pode ter as mesmas características das restantes publicações sem ter de passar por todo o criticismo inerente ao mainstream.

Enquanto alguns acreditam ser possível quebrar a “bolha” existente e ganhar credibilidade comercial através do seu amador e tradicional status, outros consideram que qualquer tentativa de ganhar audiências é de desaprovar, ou seja, é suposto que os fanzines mantenham uma posição oposta ao mainstream e que não tentei qualquer tipo de reconciliação com este.    

 A teoria é a seguinte, qualquer escritor de fanzines que esteja concentrado na sua própria audiência não está a ser verdadeiro com a música, acerca da qual escreve e fica então susceptível à corrupção que existe no mainstream. Este tipo de publicação, embora possua determinadas características que definem o fanzine, têm alguma dificuldade em serem descritos com tal.

 

 

 

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